Os poemas são como pássaros

Nesse mês, em 30 de julho, seria o aniversário do poeta gaúcho Mário Quintana (1906- 1994), que também foi jornalista e tradutor. Tenho especial carinho por esse que carinhosamente foi chamado de “Poetinha”, diminutivo que não se refere a sua obra, gigante na profusão e qualidade, mas que o aproxima de nós, de forma que nos sentimos amigos próximos.

Para quem for a Porto alegre recomendo visitar a Casa de Cultura Mário Quintana, centro cultural criado no antigo prédio do Hotel Majestic, no centro da cidade, prédio arrolado como patrimônio histórico. Mário morou no hotel entre 1968 e1980 e seu quarto, o número 217, é mantido tal qual era na época em que era o lar do poeta e pode ser visitado.

Mas, o que são poemas? O próprio Poetinha responde:


Os poemas


Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês. Quando fechas o livro, eles alçam voo como de um alçapão. Eles não têm pouso nem porto; alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhado espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti...


Não me recordo quando e em que situação li esse poema pela primeira vez, com certeza foi há muito tempo. Ele foi o responsável por me despertar para a força da poesia. Com ele entendi, finalmente, que os poemas têm um alcance especial, pois falam diretamente às emoções, não passam pelo crivo da razão. Muito pelo contrário, se tiver que explicar, estraga. De forma integral, não palavra por palavra, mas como um todo, ele fala aos nossos sentimentos, o “alimento dos pássaros” a que Mário Quintana se refere.

E quando há identificação com os sentimentos, ocorre a conexão passional, calorosa, nem sempre positiva, pois fala também às nossas sombras, mas sempre emocional. De forma quase catártica, nos sentimos aliviados, pois ganhamos voz, somos manifestados pela poesia. Nos sentimos compreendidos, amparados, já que, em nossos sentimentos, não estamos mais sós. Temos a companhia do poeta.

E é numa singela homenagem a este grande poeta, conterrâneo e tão familiar, que nesse mês de julho vou trazer, a cada semana, uma poesia de Mário Quintana, comentando o que cada uma suscitou em mim. Me acompanhe nessa experiência e veja como as mesmas palavras podem ter uma apreciação diferente para cada pessoa. Afinal, os poemas são como pássaros e o alimento deles... Bem, são particulares e já estão em cada um de nós.