O Tempo

O Tempo

(do livro Apontamentos de História Sobrenatural)


O despertador é um objeto abjeto.

Nele mora o Tempo. O Tempo não pode viver sem

nós, para não parar.

E todas as manhãs nos chama freneticamente como

um velho paralítico a tocar a campainha atroz.

Nós

é que vamos empurrando, dia a dia, sua cadeira de

rodas.

Nós, os seus escravos.

Só os poetas

os amantes

os bêbados

podem fugir

por instantes

ao Velho... Mas que raiva impotente dá no Velho

quando encontra crianças a brincar de roda

e não há outro jeito senão desviar delas a sua

cadeira de rodas!

Porque elas, simplesmente, o ignoram...

(Mário Quintana)

Ufa! Que difícil tarefa me propus no último post: trazer uma poesia de Mário Quintana a cada semana durante esse mês. Como escolher entre tantos escritos inteligentes, irônicos, espirituosos e espirituais, profundos e profundamente humanos? Não cheguei a usar o uni-duni-tê, mas quase. Por fim, pousei os olhos sobre O Tempo e decidi: é este! Porque tempo diz respeito a todos nós, indistintamente.

Todos (as exceções são descritas no poema), estamos submetidos a esse “velho atroz” que nos escraviza. Nos escraviza porque deixamos. E vamos empurrando a cadeira do velho Tempo cada vez mais vertiginosamente, porque temos que atingir metas cada vez mais ousadas, profissionais, acadêmicas e sociais. Queremos tanto, corremos tanto, mas de fato usufruímos satisfatoriamente de nossas vidas, ou precisamos registrar habilmente em áudio e vídeo para desfrutar a posteriori, quando tivermos tempo?

O quanto de nossas rotinas corridas são imposições inadiáveis e o quanto são resultados da aceleração que nós mesmos colocamos? Talvez, empurrar o Tempo mais lentamente já seja o suficiente para prestar mais atenção ao que fazemos. Talvez, fazer escolhas e eleger prioridades ajude a ter tempo para o que importa, deixar-se simplesmente ficar um pouco mais, degustar um pouco mais os momentos e eventos, experienciar sensações encantadoras, criando lembranças que seguirão conosco para sempre. Se você não sabe ou esqueceu como se faz, o poeta ensina, se divirta como as crianças brincando de roda e, simplesmente, se permita ignorar o Tempo enquanto isso.