Responsabilidade coletiva

Iniciei ontem a leitura do livro O Livro dos Negros, de Lawrence Hill, e concluí hoje. Leitura voraz. A história, ficcional, mas cuidadosamente acomodada nos fatos históricos, é contada na primeira pessoa pela protagonista, em flash back, iniciando com sua infância na África, por volta de 1745, seu sequestro por mercadores de escravos, sua chegada aos Estados Unidos para trabalhar nos plantations e sua luta para constar no “livro dos negros”, documento britânico que assegurava liberdade aos negros que serviram à Inglaterra, nos embates da independência americana.

Porém, não é para fazer a resenha da obra que escrevo, mas para comentar uma reflexão bastante profunda que ela provocou. Um sentimento de responsabilidade coletiva de toda a humanidade da época pela escravidão – ou se era escravocrata, ou se consumia produtos do trabalho escravo ou se era, minimamente, omisso - assim como a responsabilidade de todos hoje sobre as hediondas sequelas que ela deixou, expressas no preconceito e na desigualdade de oportunidades. Por extensão também, responsabilidade por tantas outras questões que envolvem o desenvolvimento e o bem-estar do ser humano.

Por que se sentir responsável por algo que não se fez? É exatamente esse o ponto que quero abordar. Vemos todos os dias notícias nacionais e internacionais sobre desrespeito aos direitos humanos, ficamos chocados, mas como não fomos nós que praticamos as injúrias, não nos sentimos responsáveis. E, sendo assim, não sentimos nenhum dever de fazer algo a respeito, além de expressar vagamente nossa indignação. Eu mesma me perguntei inúmeras vezes o que eu, tão insignificante, poderia fazer a favor de causas tão gigantes como a fome, o abandono, o preconceito, a ignorância. E a resposta é, verdadeiramente, muito pouco. Entretanto, isso não me dispensa da responsabilidade. Da mesma forma que o que acontece no nosso quintal nos diz respeito, o que acontece na nossa comunidade, país, planeta, também.

Sobre o sentimento de impotência, cabe considerar que nenhum indivíduo, isoladamente, poderá alterar o que quer que seja no coletivo. O que é importante e ético, para se tornar definitivo, deverá se alicerçar sobre a maioria, mas cada pessoa é o ponto de partida para o consenso. Impossível?

Diante do pessimismo sobre o estabelecimento da ampla justiça e harmonia entre os cidadãos do mundo, acredito que é possível, sim, quando o problema do outro for encarado como nosso. Quando direcionarmos nossos pequenos esforços na resolução desses problemas e gestos pequenos, porém convictos e incessantes, se somarem a milhões de outros, no sentido do mundo íntegro que queremos. Quando assumirmos, todos, nossa responsabilidade coletiva.

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