Otimismo ensolarado

Hoje amanheceu um dia lindamente ensolarado em São Paulo. Um alívio, depois de uma sequência de vários dias muito frios e fechados nesse final de inverno paulistano. Abrir as janelas ao acordar e ser brindada com essa enxurrada de luz e calor mudou completamente minha perspectiva do dia e, até mesmo, mudou o assunto que tinha pensado em abordar aqui no post. Não, não consigo evitar de falar do sol e do impacto positivo e otimista que me trouxe. Lembrei imediatamente de um livro que li há alguns anos, Cérebro Cinzento, Cérebro Ensolarado, da pesquisadora irlandesa Elaine Fox. Os resultados de anos de pesquisa e experimentos em psicologia e neurociência expostos na obra ecoaram, empiricamente, em mim. Busquei o livro na estante e reli alguns trechos.

Elaine fala em “mente afetiva”, o nosso jeito próprio de ser, nossa opinião e atitudes diante da vida. Ela resulta da interação de estruturas neurais primitivas ligadas ao instinto, reação de luta ou fuga e busca pelo prazer, com estruturas mais recentes do nosso córtex cerebral ampliado, aquele que nos confere os talentos cognitivos exclusivos de pensar, falar e resolver problemas. E essa mente afetiva pode tender para uma perspectiva pessimista - cinzenta, ou para uma perspectiva otimista - ensolarada. A maioria das pessoas se encontra num ponto médio, ligeiramente deslocadas no sentido do otimismo. Há, portanto, um viés otimista na humanidade, o que sugere ser um traço evolutivo importante para nos fazer chegar até aqui. Assim, o otimismo, ainda que discreto, é nosso estado natural. Já os extremos são negativos. O excesso de otimismo nos deixa imprudentes e nos faz correr riscos desnecessários. O pessimismo, é fácil de entender, nos paralisa, nos impede até de tentar, e, na sua expressão mais intensa, predispõe a quadros de ansiedade e depressão.

A ciência psicológica já conseguiu mensurar fortes vantagens de nos deslocarmos no sentido do otimismo e vale mesmo o esforço consciente e ativo para ir nessa direção. O otimista tende a aceitar aquilo que é bom, mas também o que é ruim, e está preparado para trabalhar criativa e persistentemente para conseguir o que quer na vida, tende a estar envolvido numa vida significativa, ter mais resiliência e se sentir no controle. Os verdadeiros otimistas não acreditam em soluções mágicas, mas entendem, em um nível muito profundo, que eles têm algum controle sobre seu destino, arregaçam as mangas e não desistem do que desejam, conquistam maior bem estar porque o otimismo aumenta o envolvimento com as metas da vida e não por um tipo de fluido milagroso que os otimistas têm e os pessimistas não. Além, disso, como se não fosse suficiente, os otimistas têm mais saúde e vivem mais.

Mas como ser mais otimista? A boa notícia é que o nosso cérebro “pensante”, cognitivo, é capaz de neutralizar as leituras ameaçadoras do nosso cérebro cinzento, re-significando experiências. Práticas mente-corpo também se mostram eficientes para desligar gatilhos do medo de que nada vai dar certo. E, sobretudo, estimular uma visão otimista da vida passa por reconhecer o que é positivo, desenvolvendo ainda a gratidão pelas pequenas e grandes coisas que nos fazem bem. Hoje vivenciei um exemplo disso, o calor do sol sobre a pele, a bela luminosidade que tocava tudo e fazia brilhar o verde das plantas, o som calmante da brisa movimentando as folhas das árvores. Me senti grata por usufruir de tudo isso e mesmo que períodos de frio e nuvens eventualmente se interponham, me fez sentir profundamente otimista com relação ao futuro. Além, disso, saber que qualquer um pode usufruir do mesmo prazer intensifica a satisfação. Afinal, o sol é para todos.

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