Oportunidades

Samir saiu da loja, conferiu o antigo letreiro vermelho onde estava escrito “Oportunidades”, apreciou a manhã clara daquele início de primavera e depois olhou em volta até encontrar o que procurava:

—Hei! Rapaz! Vem cá!

O garoto sujo, descabelado e com os pés descalços olhou em volta até identificar de onde viera aquele chamado. Não teve certeza até que o velhinho do outro lado da rua falou de novo:

—Aqui! Estou chamando!

Desconfiado, Antônio cruzou a estreita rua do Brás, ainda pouco movimentada naquela hora. Era cedo. Ou tarde, dependendo do ponto de vista de quem ainda não havia dormido, e se postou diante daquele homem magro, com a face amarrotada pelos sinais da idade, sem dizer uma palavra. Apenas esperou, displicente, ser enxotado dali. Moradores de rua enfeiam as fachadas e espantam os clientes, não eram aceitos ali durante o horário comercial.

—Como é o seu nome?

—Tonho — respondeu com má vontade.

—Tome aqui — deu a ele uma nota de vinte reais.

—Isso é para eu sumir daqui?

—Claro que não, para isso não preciso lhe pagar, é só chamar o segurança da rua. Quero que faça um serviço. Me ache alguém com um carrinho que recolha recicláveis. Tenho um monte de embalagem de papelão e outras coisas obstruindo a entrada de mercadorias da loja, na rua detrás. Preciso urgente que recolham tudo e deixem tudo limpo. Resolve isso para mim.

O rapaz riu:

— E quem te garante que eu vou fazer isso? Que não vou sumir com seu dinheiro?

—Ninguém. É sua escolha — e o velhinho tornou a entrar no estabelecimento, mas antes de sumir em meio aos corredores de prateleiras lotadas de mercadoria, voltou-se e acrescentou: —Se quiser, esteja aqui, amanhã, no mesmo horário, que terei outra tarefa para você. Agora, vai, vai!

Antônio enfiou rapidamente a nota no bolso e saiu a passo.

No final da manhã o homem velho espiou pela porta dos fundos e conferiu, satisfeito, que não havia mais nada ali. Na manhã seguinte, no mesmo horário, lá estava Antônio em frente à loja. Samir se aproximou e elogiou:

—Você fez um ótimo trabalho, ontem.

—E quem disse que fui eu?

—Caso contrário você não estaria aqui de volta. E, além do mais, havia muito lixo ali que ninguém iria pegar, a menos que fosse pago para isso. Isopor, mesmo, ninguém leva, porque não recicla.

—Verdade, o carroceiro não queria levar, aí botei na lixeira da praça.

—Como eu disse, você fez um ótimo trabalho e, se está aqui, presumo que tenha interesse em mais.

O rapaz franzino apenas sacudiu levemente a cabeça

— Preciso que lixe e pinte a parede do fundo, hoje. O material necessário já está lá. Ande logo que é serviço para um dia. A parede é estreita.

E após colocar cem reais na mão dele, entrou na loja dizendo: — Se quiser, volte amanhã. Mas chega mais cedo, antes da loja abrir.

No final do dia a tarefa estava concluída e no dia seguinte, lá estava Antônio a postos. Samir o observou, contente, percebendo que o jovem tentara, de alguma forma, melhorar a aparência. Lavara-se e colocara a camisa dentro da calça. Arrumara também um chinelo. Mandou então que pegasse balde e vassoura e lavasse a fachada da loja e a calçada. Entregou-lhe o pagamento, como sempre adiantado, e o deixou sozinho, caminhando sem pressa para tomar um café na padaria da esquina. Ainda ouviu:

—Posso voltar amanhã?

—Se você quiser...

Aos poucos, Antônio começou a fazer pequenos serviços dentro da loja, ganhou uniforme, vale refeição e salário de experiência. Aprendia com os colegas e fazia planos para estudar. Nos dias de dezembro, com o movimento intenso, improvisou como vendedor e até se saiu bem.

Faltando apenas dois dias para o Natal, Samir observava o céu da janela, como sempre gostava de fazer quando se entregava às suas reflexões. Pensava no jovem Antônio e nele mesmo, que há cinquenta anos se encontrava numa situação idêntica e recebera do velho Assis tratamento igual. Recordou os dias de abandono, mas também os de luta. Recordou os momentos felizes, a família que construíra, filhos e netos e o negócio bem sucedido. Pensou em como tudo poderia ter sido tão desastrosamente diferente.

Voltou-se ao escutar a porta se abrir. A companheira de décadas sorriu um sorriso cúmplice e avisou:

— Seu mais novo funcionário chegou. Eu mesma o recebi. Acanhado que só ele, mas o coloquei sentado com os colegas. Antônio já já relaxa — riu.

—Ah, que bom. A festa será completa.

Ela o abraçou, deu-lhe um rápido beijo, afastou-se um pouco para olhá-lo nos olhos e perguntou:

— Por que ainda faz isso? Já ajuda a tantas instituições todos os meses...

— Não faço isso por ninguém, a não ser por mim. Renovo em cada Natal a minha fé na humanidade. Faço como um tributo ao Assis, que mudou a minha vida no passado e tento influenciar os outros para que enxerguem a sua responsabilidade sobre o mundo que queremos. Cada pessoa que trabalha para mim entende e colabora. Muitos dos que já seguem caminho solo hoje fazem a mesma coisa que eu fiz por eles.

—É somente para isso que mantém aquela primeira lojinha?! — ela sorriu, após quarenta anos de casada o marido ainda era capaz de surpreendê-la.

— Onde mais teríamos papelão para jogar fora, paredes velhas para caiar e calçadas tão sujas para lavar?! — ele também sorriu, deu o braço a ela e juntos foram receber os convidados para a ceia:

— Quantos somos hoje?

— Quatro filhos, onze netos, um bisneto a caminho e trezentos e cinquenta funcionários, quer dizer, com o Antônio, 351, contabilizou a mulher.

—Precisamos de um espaço maior... No ano que vem serão, no mínimo, 352!

—Graças à lojinha?

—Graças a eles mesmos. A lojinha é, como o próprio nome diz, apenas “oportunidades”.






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