O Tipo de Amigo Que Queremos Ser

Uma pessoa deve se erguer por si mesma; ela não deve se degradar. Pois apenas ele próprio [ātman] é seu amigo e apenas ele próprio é seu inimigo” *


A frase destacada acima é o verso 6-5 da Bhagavad Gita, talvez o texto clássico indiano mais traduzido e comentado no ocidente. Complexa e profunda, riquíssima de ensinamentos espirituais e sobre a natureza humana, a obra está muito além da minha capacidade de análise, porém, ouso citar esse verso porque ele se conjuga perfeitamente com a ideia de que tudo o que nos aflige ou nos faz feliz é profundamente influenciado por nós mesmos, somos o nosso melhor amigo e o nosso pior inimigo.

Essa consciência é libertadora e auspiciosa, por um lado, pois nos dá o poder de decidir sobre o que queremos ser, ter e viver. Não nos deixamos simplesmente ficar à espera de que nossas demandas sejam atendidas, tomamos as rédeas da nossa história. Por outro lado, pode ser assustador, pois nos imputa a total responsabilidade pela nossa satisfação com a vida. Acaba com a tentação de nos sentirmos vítimas, a quem só resta a opção de sofrer. É verdade que existem incontáveis casos de violência e abuso, em que vítimas de fato necessitam de ajuda e acolhimento. Porém, também elas, escolherão ser amigas ou inimigas de si mesmas em algum momento.

Para a grande maioria de nós, felizmente, as agressões não são tão atrozes, na verdade, os desafios são até bastante amenos, se compararmos com os desafios de séculos anteriores. Indicadores sociais sobem, apesar dos pesares. Nesse cenário, em que a luta pela sobrevivência se torna mais amena, nossas necessidades imateriais crescem. Aumenta nossa demanda por auto estima, realização, propósito e afeto.

Num exemplo, se necessito aumentar auto estima, posso olhar para mim mesma com o olhar “amigo” e enxergar a pessoa complexa, rica de qualidades que fazem cada indivíduo um ser único. Posso ter sobre mim um olhar compreensivo, entendendo e aceitando as minhas fraquezas e limitações, mas cultivando igualmente a intenção e o esforço em superá-las. Posso gostar de mim, por que gosto, pois é assim que as amizades verdadeiras se constroem. Se escolho um olhar “inimigo” vou enxergar o que é positivo em mim como insuficiente, taxar minhas fraquezas como inaceitáveis e me culpar por abrigá-las. Um ser desqualificado, e não um ser em processo de construção. Viu a diferença?

Se tentarmos colocar de forma objetiva, as atitudes “amigas” em relação a nós mesmos incluem amor, generosidade, paciência, compreensão, humildade, desapego, sabedoria, esforço, etc. Virtudes, enfim. Por outro lado, as atitudes “inimigas” contém seus opostos, ódio, egoísmo, intolerância, incompreensão, orgulho, vaidade, ganância, ignorância, preguiça. Não é uma questão de moralismo raso, muito menos religioso, mas uma constatação do que nos é útil e do que não nos é. Uma questão de escolher o tipo de “amigo” [de nós mesmos] que queremos ser.


*Bhagavad Gita - A Canção Divina. Martins, R.A, 2014

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