Pets



Deitei preguiçosamente depois do almoço, estiquei gostosamente as pernas, fechei os olhos disposta a uma breve soneca e... Senti cócegas no nariz, abri novamente os olhos e o que vi foi mais ou menos a imagem reproduzida ao lado. E, ao contrário de me aborrecer com a interrupção do descanso, abri o sorriso com uma alegria difícil de descrever, mas genuína e doce. Na sequência, o olhar curioso foi substituído pelo latido bem conhecido que traduzo com segurança: “vamos brincar”?!

O que descrevo, bem frequente, aliás, na minha rotina, é facilmente compreendido por quem tem pets. Não raro abrimos mão, de boa vontade, do que estamos fazendo para atender os desejos deles, o que os deixa, ah confessa, mimados! Poderia falar aqui de animais de trabalho e de suas incríveis e muitas vezes essenciais utilidades, mas o que me vem mesmo à cabeça é o que já sabe quem ama esses peludos. Você gosta deles porque gosta. Só isso. Não importa se são úteis ou não, é pelo puro prazer da convivência. E nem assim dá para fugir da utilidade – suporte social e emocional –, eles são úteis até mesmo quando era apenas para serem fofos!

A origem dessa parceria se perde no tempo, os cientistas cada vez descobrem fósseis mais antigos de cães juntos dos humanos - até de 20 mil anos, estimam, e de 10 mil anos para os gatos - os dois mais emblemáticos e numerosos grupos de animais de estimação que temos. Esse longo período de convivência entre as espécies fez surgir uma ligação muito especial, não só facilitando e aumentando as chances de sobrevivência de ambos, mas também exercitando em nós traços fundamentais para construir a sociedade harmoniosa e fraterna que almejamos.

Com os pets exercitamos a empatia. Duvida? Está no momento final do filme, você não consegue desgrudar os olhos da tela e... Seu cão precisa urgentemente ir à rua ou se põe a pedir comida na cozinha: impossível ignorar, “tadinho” ainda dizemos. Ou quando eles estão doentes e ficamos angustiados até que tudo se resolva, a dor deles parecendo nossa. Treinamos com eles a abnegação, a responsabilidade, a disciplina (eles têm uma rotina que até parece um reloginho lá dentro!), enfim, exercitamos zelar pelo próximo, do jeitinho que ele é e sem esperar nada em troca.

Praticamos cidadania e responsabilidade coletiva quando aprovamos, por pressão da sociedade, leis contra os maus tratos e contra o abandono. Os pets, ainda, tem o potencial para resgatar a sensibilidade dos corações humanos endurecidos, que muitas vezes se indispõem com todos seus semelhantes, mas aceitam de bom grado o abanar da cauda de um cão ou o delicado afagar de um gato nas pernas, preparando o caminho para a reconciliação com os homens. Atenuam os impactos da solidão naqueles que a vida deserdou e vemos que eles podem se constituir num objetivo de vida, quando parece que nada mais restou. Ensinamos nossas crianças a cuidar e tratar o outro dignamente, ao se importarem com um animal dependente e submisso e tornamos nosso ambiente mais rico e acolhedor.

Tudo isso me ocorreu enquanto, depois de me levantar, arremessava estoicamente, pela enésima vez, o osso de borracha através do corredor. O pior é que meu cachorro nem me devolve o brinquedo!

Preciso correr atrás dele, numa disputa acirrada para recuperá-lo, para então jogar e recomeçar tudo de novo, só parando quando ele se cansa e quer dormir. Me pergunto, periodicamente, quem de nós manda em quem.

Melhor nem responder...