O poeta, a ciência e o propósito.

“A maior riqueza do homem é a sua incompletude. Nesse ponto sou abastado.”


Me identifiquei de imediato com os versos de Manoel de Barros e, de fato, creio, somos todos incompletos em busca do que nos complemente, daquilo que nos preencha e nos encha de satisfação com a vida. Vamos acrescentando muitas coisas, afetos, conhecimento, objetos, reflexões, fé em o que quer que seja, mas seguimos incompletos. O que nos falta? Não me canso de pensar sobre isso. E, se a poesia aponta o problema, talvez a ciência indique a solução.

Em um estudo realizado pela Escola de Medicina de San Diego e publicado no Journal of Clinical Psychiatry em 2019, o pesquisador Dilip V. Jest e seus colaboradores entrevistaram 1042 adultos de 21 a 100 anos. Os participantes tinham que indicar sua condição entre “eu estou buscando um propósito ou missão para minha vida” e “eu descobri um propósito de vida satisfatório”. Os resultados mostraram que a presença de propósito está associada a maior bem estar físico e mental, melhor saúde e até maior longevidade. Já a busca por um propósito está associado a um nível menor no bem estar e funções cognitivas. Ou seja, ter um propósito é ótimo, mas desejar um propósito e ainda não ter encontrado é estressante.

Mas o que é propósito? No dicionário encontramos “aquilo que se busca alcançar; objetivo, finalidade, intuito”. Para Martin Seligman, autor de Felicidade Autêntica, é “uma vida significativa, algo que nos une a algo maior - e quanto maior, mais significado”. E o que pode ser isso? Na minha visão pessoal, é algo maior do que nós mesmos, aquilo que ultrapassa o nosso interesse próprio. É quando atuamos para o bem estar do outro ou de uma coletividade inteira.

Para os que já encontraram um propósito, a ciência diz mantenha e amplie. Para os que ainda estão buscando, penso que vale começar pequeno, discreto, um propósito ao alcance da mão. Lembra do estudo? Já basta para sair do grupo “buscando” e pular para o grupo dos “com propósito” para usufruir dos benefícios comprovados pelos pesquisadores. Exercitando, nos tornamos hábeis e habilitados podemos expandir, se desejarmos. Talvez, um dia, a medicina vá prescrever “propósito” como terapia. Talvez você prefira a receita do poeta e “use borboletas”.


Biografia do orvalho

A maior riqueza do homem é a sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitam como sou — eu não aceito. Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. Perdoai. Mas eu preciso ser Outros. Eu penso renovar o homem usando borboletas.

(Manoel de Barros)