O Perigo de Aceitar Uma Única História

O livro Sejamos Todos Feministas, da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, caiu de paraquedas no meu sábado. Obra curtinha, um ensaio, na verdade, sobre a desigualdade de gênero, cujo conteúdo colocado com clareza, simplicidade e lucidez me fez desejar saber mais sobre a autora e sua obra. E foi numa busca rápida na internet que encontrei a palestra dela “O perigo da história única” – e, definitivamente, não me decepcionei. Dizer o quê? Fiquei fã. A palestra também tem o formato de livro. Recomendo.

Chimamanda é muito hábil em mostrar como facilmente nos rendemos e aceitamos uma única história, seja de alguém, de um país ou de uma cultura. E como a reprodução constante dessa mesma história, deste único ponto de vista, nos tolda a visão e ajuda a criar estereótipos, sempre pobres – pela simplificação, e injustos, pois ainda que guardem alguma verdade, é apenas uma ínfima faceta desta. Um exemplo é o Brasil ser o país do Carnaval - uma das “histórias” mais frequentemente recontadas sobre nós. Convenhamos, isso não nos representa!

Certa vez, meu filho comentou uma frase que escutou de um professor na faculdade, “quanto maior e mais variada a cultura de uma pessoa, menor o preconceito, pois nos acostumamos com o diferente”. Comentamos a pertinência da afirmação na época, mas hoje, após as considerações da palestra, a ideia ganhou um sentido mais claro e mais amplo para mim. Cultura mais variada é igual a escutar diferentes histórias, no plano individual e coletivo.

Cultura mais variada é proporcionar às nossas crianças histórias mais variadas sobre tipos de heróis e princesas, histórias mais variadas sobre o que é o belo e o que é desejável. Que uma população pobre não é somente tristeza e injustiça, mas pode abrigar, a despeito disso, criatividade, trabalho, acolhimento e eficiência. Que uma nação rica tem também muitos desafios e não é, necessariamente, referência do ideal. Colocar os estigmas abaixo me parece um bom começo para a transformação necessária da sociedade. Enseja perceber mais o que nos assemelha do que o que nos distingue, enquanto humanidade.

Precisamos contar e compartilhar cada vez mais diferentes histórias, nos familiarizar com o diverso, trocar pena por dignidade, trocar um ideal único, por muitos ideais distintos ricos de significado. Se, olhando para nós mesmos, reconhecemos que somos plurais e, muitas vezes, contraditórios, como um país, uma cultura, um povo seria apenas uma coisa? Fica o alerta de Chimamanda sobre os perigos de uma única história. Sejamos e saibamos reconhecer o outro como múltiplos.


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