(Não)Vamos falar de fracasso

Vivemos a época do sucesso. Nunca antes se falou tanto sobre a melhor maneira de galgar os degraus para ser bem sucedido, em qualquer que seja a área, pessoal, profissional ou afetiva, e as redes sociais sancionam, exibindo nossas conquistas. É quase a ditadura do sucesso. E, se você não teve êxito, não diga nada a ninguém, disfarce da melhor maneira possível. E, por que damos ênfase apenas ao triunfo, criamos a falsa ideia de que falhar num objetivo é problema de alguns incapazes, e não parte da experiência de vida de todos nós.

Nada contra o sucesso. Também quero. Quem não...? Meu ponto é ignorarmos que a experiência fracassada é também experiência válida. Às vezes, traz atrelado até mais valor, acrescenta mais. Meu ponto é que o tão supervalorizado sucesso traz um nível elevado de ansiedade e angústia – e se eu falhar? -, nos perguntamos com frequência, e sofremos por antecipação, dura e cruelmente. Acontece em especial com os jovens (como um adolescente às vésperas do vestibular ou de outra prova importante), mas acontece com os maduros também. E a angústia e o medo de fracassar são tamanhos que muitos desistem antes mesmo de tentar ou inutilizam todo o conhecimento e preparo que tiveram, permitindo que o medo do fracasso bloqueie seus recursos cognitivos. Já sucesso inalcançado traz auto recriminação, auto desvalorização e culpa.

Foi essa a reflexão que me trouxe a leitura de o Velho e o Mar, de Ernest Hemingway. Livro pequeno, 126 páginas na edição que tenho, nos conduz para junto do pescador Santiago. Há 84 dias sem pescar nenhum peixe, o velho e paupérrimo pescador se afasta, sozinho, para águas mais profundas. Fisga um peixe maior do que o seu barco, luta por quase três dias para vencê-lo, usando sua experiência, seu conhecimento do ofício, consumindo suas forças, machucando seu corpo, forçando-se a pensar na melhor ação possível a cada nova dificuldade. Conquistado o prêmio, amarra-o ao lado da embarcação e parte para terra, mas no caminho precisa enfrentar muitos tubarões atraídos pelo cheiro do grande peixe abatido. Santiago permanece firme, mas fracassa, afinal. Ou não, depende do ponto de vista.

Ele ostenta uma força interior que o faz resistir aos apelos da autopiedade e do arrependimento, e se desafia a dar o melhor de si o tempo todo, como no trecho em que diz a si mesmo: “Devia ter trazido uma pedra. Sim, você devia ter trazido muitas coisas, pensou. Mas não as trouxe, velho. Agora não é hora de pensar naquilo que você não tem. Pense antes naquilo que pode fazer com o que tem”.

O pescador de Hemingway ilustra que podemos fazer do fracasso uma vivência enriquecedora e, desse prisma, positiva. O esforço empregado não é perdido, antes conforta, pois era o factível, e enseja novo patamar de empenho. Sobre o esforço podemos atuar, sobre o resultado, não. Existem sempre variáveis que tornam o resultado uma incógnita, o que, aliás, é ótimo, não teria graça nenhuma se já tivéssemos a certeza do êxito. Tiraria a expectativa, a motivação para a preparação e para a superação. No entanto, o fracasso é ruim, claro que é, mas antes de tudo é um fato, nada mais. Um fato que aumenta nossa experiência, não a diminui. Um fato que pode ou não se repetir, e tudo bem. Convém retirar dele o estigma de sentença sem apelação para encará-lo com mais leveza, naturalidade e compreensão. Orgulhar-se dele. São cicatrizes de batalha. Mas para isso acontecer, precisamos falar mais do fracasso.

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