Não Somos Apenas Um (Parte Final)

Alina adormeceu junto dele e só acordou bem mais tarde, quando sentiu o carro parar. O posto de gasolina na beira da estrada estava vazio. Nem cliente, nem funcionário. Zac tentava destravar a bomba.

—Vou ao banheiro – avisou Alina, ainda sonolenta.

Alguns minutos e ele finalmente conseguiu romper o lacre e fazer a bomba funcionar. O cheiro forte e bem-vindo do combustível o encheu de otimismo, afinal tudo tinha dado certo até agora, pensou.

Um grito.

—Alina!

Correu na direção do grito, que vinha da loja de conveniência. Abriu a porta com força. Alina segurava o canivete a um milímetro da garganta de um rapaz ruivo, de franja. Os olhos dela estavam ferozes. O pobre rapaz se urinara todo e tremia, pálido e mudo de susto, segurando o cabo da vassoura como última linha de defesa.

Lentamente, Zac se aproximou, falando baixo e gentilmente:

—Está tudo bem, Alina. Olha, ele só está com medo, não vai nos fazer mal...

Ela relaxou e permitiu que o amigo tirasse a faca da sua mão. Zac respirou aliviado e olhando amistosamente para o rapaz foi dizendo:

—Desculpa, ela está nervosa...

O rapaz sorriu e num gesto rápido estocou o cabo de vassoura na garganta de Zac, que caiu no chão se contorcendo, quase sem conseguir respirar, deixando a faca de Alina escorregar para baixo da prateleira.

A moça reagiu soltando um grito. Olhou em volta, pegou o extintor de incêndio próximo e o ativou na cara do ruivo, cegando-o momentaneamente, para, a seguir, recorrer a toda sua força, elevar o extintor e descê-lo com tudo na cabeça do rapaz, deixando-o inconsciente no chão.

Ajudou o amigo a se levantar:

—Você está bem?

Num fio de voz rouca ele respondeu:

—Estou - suspirou - e não me deixe nunca mais impedi-la de acertar alguém...

Ela riu e se afastou alguns passos:

—Vou pegar alguma coisa para gente comer e vamos sair daqui. Ah, e ache meu canivete!

Rodaram até o anoitecer, quando alcançaram uma estrada secundária que deveria levar até retiro. A lua surgiu cheia e iluminou a noite, por isso decidiram avançar mais um pouco, com os faróis apagados para não chamar a atenção. Chegaram bem perto dos limites da comunidade e, para a surpresa deles, um muro alto e eletrificado tinha sido construído em torno dela.

Deixaram o carro escondido junto à vegetação e prosseguiram a pé, contornando o muro. Aquilo definitivamente não era a aparência que esperavam de um retiro espiritual! De repente, uma luz forte caiu sobre eles e uma voz num autofalante ordenou que parassem, colocassem as mãos na cabeça e encostassem na parede. Zac começou a obedecer, quando Alina o puxou:

—Você vai mesmo obedecer? Corre!

Aos tropeços por causa da pouca luz e do terreno irregular, tentaram chegar no carro, mas um grupo de homens armados com bastões os interceptou. Alina ainda tentou sacar o canivete que a salvara tantas vezes antes, mas num golpe preciso foi desarmada e jogada no chão, porém sem nenhum ferimento.

Foram levados para dentro dos muros e o que viram foi uma vila de edificações harmoniosas, jardins cuidados e pessoas de todos os tipos, cores e idades que se juntaram no que parecia ser uma praça.

Um homem de cabelos brancos, mas compleição vigorosa, se aproximou. Um dos guardas o chamou “Mestre” e falou alguma coisa ao seu ouvido. Ele assentiu e se dirigiu aos recém-chegados:

—O que desejam aqui? Meus colaboradores encontraram um mapa com a nossa localização exata no seu carro, portanto não vieram parar aqui por acaso. Quem enviou vocês?

—Val! – gritou Zac, apavorado e cansado de fugir, quanto mais andavam, pior ficava.

—Quem é Val?

—A professora Valquíria, irmã do Cesar. Trouxemos uma carta para ele!

Um homem grande, pouco mais novo do que Val, mas muito parecido com ela, se aproximou. Alina entregou a carta. Ele leu e fez que sim com a cabeça.

—Muito bem – continuou o Mestre – o rapaz pode ficar aqui, demonstrou que consegue seguir as regras e manter-se calmo, sem violência. A menina precisa ir. Sua índole agressiva está em desacordo com nossa proposta.

—Não, Alina tem que ficar!

—Tudo bem, Zac, eu sei me cuidar, você sabe disso... – mas a voz dela embargou e ela não conseguiu dizer mais nada.

Zac segurou a sua mão, a olhou nos olhos, arrumou cuidadosamente uma mecha de cabelo que teimava em cobrir o rosto da amiga e, por fim, disse carinhosamente:

—Estamos juntos nessa, como sempre, ouviu?

Ela fez que sim com a cabeça e ele sorriu aliviado, mas num instante ela gritou para os guardas:

—Segurem ele aqui! Prendam-no, se for preciso – e saiu correndo na direção ao portão – abram!

A atitude inesperada deixou todos sem ação. Ela já estava cruzando o portão quando o Mestre a chamou, com voz forte:

—Alina! Espere! Talvez haja mais em você do que a violência que eu vi. Ofereço uma chance. Talvez possamos treiná-la.

Zac correu até ela e a trouxe de volta. A jovem sustentava sua expressão de desafio característica:

—Como assim “uma chance”? Como assim “treinar”?!

—Venham comigo. Vamos subir naquele mirante sobre o muro e enquanto caminhamos vou explicando algumas coisas.

Dispensando a todos, o Mestre foi andando devagar com os jovens ao seu lado:

— Há dez anos o meu mestre, Si'āṇā, um monge formado nas tradições da Índia e do Tibet, foi chamado a participar de uma experiência militar. Sua função era treinar os soldados para que, através das práticas mente/corpo, fossem capazes de controlar seu sistema neurovegetativo e desligar a resposta ao estresse, a resposta de luta ou fuga. Ele achou que a proposta fazia muito sentido, gerenciar o estresse é muito útil, até o dia em que acidentalmente descobriu que o grupo de cientistas de várias nacionalidades trabalhava numa arma biológica cujo gatilho era o estresse e que o treinamento meditativo se destinava a gerar um tipo de comportamento imune Ele quis deixar o programa, mas só o deixaram mediante tratamento medicamentoso que lhe excluiria as memórias recentes. Mestre Si'āṇā concordou prontamente, pois sabia que já tinha o patrimônio psíquico necessário para recuperá-las depois. E assim foi.

Eles começaram a subir os degraus que levavam ao mirante e o Mestre continuou:

—Sabendo que a possibilidade de desintegrar as forças opositoras espalhando um vírus nos exércitos inimigos era uma possibilidade tentadora demais para que deixassem o projeto guardado na gaveta, e entendendo que as consequências desastrosas para a humanidade seriam irreversíveis, Mestre Si'āṇā enviou discípulos a todo o mundo para que fundassem comunidades como essa aqui, destinadas a ensinar o maior número possível de pessoas a controlar e gerenciar seu estresse, ficando resistentes ou imunes ao vírus. Ele identificou que práticas contemplativas associadas ao desenvolvimento da compaixão, criariam um ambiente desfavorável ao vírus, se não o inibisse totalmente, pelo menos o frearia, dando tempo ao organismo para desenvolver anticorpos antes que o cérebro fosse definitivamente afetado. Isso é o que fazemos aqui, treinamos sobreviventes, combatendo serenamente a epidemia mundial.

—Eu quero ser treinado, Mestre, por favor! – pediu Zac.

O Mestre sorriu, satisfeito, mas Alina não se dera ainda por satisfeita:

—É desproporcional, é um delírio! Como vão fazer diferença?! Você sabe o que está acontecendo lá fora? Já saiu da sua toca confortável para ver a realidade?!

—Sabemos exatamente o que se passa no mundo, Alina, temos a mais alta tecnologia e autonomia energética aqui, embora pareça, não estamos isolados.

Alina se exasperou mais ainda:

—Vocês são ingênuos, então! Por melhor que sejam, por mais eficiente que suas técnicas sejam, vocês são apenas um grupo!

O Mestre fez um gesto com a mão e alertou o vigia. Um sinal luminoso se acendeu, como uma fogueira das antigas fortificações:

—Olhe para trás, Alina! Não somos apenas um...

Alina e Zac se voltaram e viram, maravilhados, que por onde se estendia a cadeia de montanhas, luzes e luzes se acenderam em resposta.

—Não, não somos apenas um – repetiu, satisfeito, o Mestre.

FIM

Quero receber notificações de novos post

© 2020 Agda Theisen