Não Somos Apenas Um (Parte 2)

Na sala com as janelas fechadas e calçadas com pedaços de madeira, a televisão ligada mostrava repetidamente a mesma reportagem:

—Desde ontem à noite só exibem a mesma matéria - explicou Val. Ontem ainda consegui ver alguns canais internacionais, pela internet, mas hoje já estou off-line.

—Não sabemos de nada, Val! – o tom de Alina denunciava seu espanto - nosso amigo Vadinho foi assassinado. Velório, enterro, depois disso, ficamos em casa chorando, sem querer ver nada nem ninguém. Só na noite passada, o Zac me convenceu a sair um pouco. Ele tinha um lance com o DJ. Então fui assistir, mas não consegui ficar no baile, voltei para casa mais cedo. Antes de chegar, um imbecil quis me estuprar. Me defendi. Esse sangue aqui – apontou para si – é dele.

Val apenas balançou a cabeça. Fez os dois se sentarem e contou o pouco que sabia:

—Temos acompanhado uma escalada de violência pelos noticiários, mas no meio de tanta notícia ruim, crise, fome, ineficiência da segurança pública, demoramos a perceber que tinha algo a mais.

Em toda a minha vida sempre preguei que um colapso social aconteceria, se a exclusão, a pobreza, a educação e a saúde não fossem prioridades, mas nem em meus piores pesadelos pude imaginar o que aconteceu. Pelo que se sabe, o vírus surgiu de uma manipulação genética. Uma arma biológica. Ninguém, evidentemente, até onde os jornais noticiaram, assumiu a responsabilidade, mas parece que o vírus era destinado a desestruturar exércitos inimigos, destruindo a parte do cérebro em que se desenvolve as noções de certo e errado. É como se o vírus criasse um exército de sociopatas, selvageria pura. Acho que a proposta era fazer com que se matassem uns aos outros... E o vírus vazou.

—Aqui no Brasil?!

—Se espalhou no mundo todo. Ninguém sabe ao certo onde começou. Especula-se sobre a Rússia, o Oriente Médio, China, Estados Unidos. Quem vai saber?

—E como pega, quero dizer, a doença, é vírus como da gripe?

—Não. É transmitido pelo sangue. Mordidas, sexo, armas contaminadas...

—É tipo um apocalipse zumbi?

—Isso não é hora de brincadeira, Zac! – repreendeu Alina.

—Não estou brincando, não, é que a comparação é inevitável – desculpou-se.

—Tem cura, Val?

—Ninguém falou nada. Os meios de comunicação que ainda transmitem apenas dizem para ninguém sair de casa, falam de um toque de recolher a partir das seis da tarde e que a polícia vai atirar, sem perguntar, em quem quer que esteja na rua após esse horário. Mas está difícil de diferenciar quem é da polícia, quem está ou não está contaminado. O comportamento é igual. Já se falou também de evacuação e isolamento das cidades, mas então as notícias interromperam e só essa nota do governo mandando ficar em casa e manter a calma fica passando. Como se fosse possível ficar calma - suspirou amargurada.

A velha professora de biologia da escola, que oferecia reforço escolar gratuito na sua própria casa, pareceu mais velha ainda. O rosto cheio que exibia aos alunos um sorriso amplo e encorajador, havia perdido o viço e o tônus, as bochechas pareciam penduradas, as olheiras estavam profundas e os olhos que já haviam chorado muito estavam avermelhados. Val entregara os pontos.

—Qualquer um pode pegar, Val? O vírus?

Ela fez um arremedo de sorriso. Conhecia a mente rápida daquele menino. Ele estava procurando uma solução, uma saída:

—Pouco se sabe, na verdade. Parece que algumas pessoas são imunes, mas o diagnóstico também é pobre, baseado na mudança de conduta e não em um exame específico. E como saber se o indivíduo está contaminado pelo vírus ou só está reagindo ao ambiente hostil?

Ficaram ali sentados, três pares de olhos mirando o chão, o nada, o seu próprio pensamento. Finalmente, Val determinou:

—Vem tomar um banho e mudar a roupa, Alina. Zac também. Está muito chamativo com esses correntões e anéis falsos. Cruzes!

O garoto sorriu pela primeira vez:

—É meu estilo MC Zac. Ficou da hora!

—Ficou fake. Tenho roupas que estava recolhendo para a campanha de doação. Tem coisa ali que deve servir em vocês. Se arrumem, comam alguma coisa e partam.

—Para onde, Val? Não podemos ficar aqui com você?

—Não! Vocês não entenderam? Acabou São Paulo. Acabou país, acabou, talvez, o mundo como o conhecemos! Vocês precisam deixar a cidade, buscar o campo, se esconder, quanto menos gente melhor, quanto menor a comunidade, melhor. É uma questão de tempo começarem a invadir as casas, saquear e matar. Já começou a acontecer, acho que por isso cortaram a transmissão das notícias, para não criar mais pânico ainda. Se protejam, se escondam e tentem chegar numa comunidade na Serra da Mantiqueira, chamada “ZenRu”. É um tipo de seita, comunidade alternativa, retiro zen, sei lá, que se dedica à meditação, à vida bucólica. Todos cultivam a terra, compartilham recursos, não há energia elétrica, nem comunicação digital. As habitações são sustentáveis. Vou marcar no mapa. Graças a Deus sou nostálgica e ainda tenho alguma coisa em papel!

Enquanto remexia em suas gavetas, continuou falando:

—Nunca quis ir lá, Deus me livre de tomar banho frio, mas meu irmão parece que se encontrou naquele estilo de vida. Nas últimas vezes em que falei com o César, ele parecia em paz e convicto de que era aquilo que queria. Nunca entendi essa opção, mas hoje penso que ele estava certo. Esse lugar pode ser um refúgio para vocês. Achei! Eu vou escrever uma carta para o César e vocês se aprontem. Agora!

A ordem enérgica os fez agir. Obedientemente, tomaram banho e escolheram, entre as roupas disponíveis, jeans, camisetas e moletons. Prontos, tomaram o lanche que Val ofereceu e quando ela lhes deu a carta para entregar ao irmão, se o encontrassem, Alina pediu:

—Vem com a gente, Val!

—Não, minhas chances são melhores aqui. Na minha idade, com esse joelho e esse tamanho? Não dá. Preciso ficar. Minha casa é bem segura. Melhor ficar...

A voz da professora sumiu e os seus olhos encheram de água. Controlando-se, ela ainda esclareceu:

—Assisti um debate com uns pesquisadores de Cambridge, antes de cair a internet. Pelo que entendi, a multiplicação do vírus depende do nível de cortisol no sangue. Níveis elevados de cortisol estimulam e mantém a replicação viral. Depois disso, o vírus chega ao cérebro e destrói áreas do córtex associadas ao comportamento social. Meu irmão estava certo ao deixar o cargo de diretor de uma multinacional, ele sempre dizia “o estresse ainda vai matar todos nós”.

—Então, só o que precisamos é ficar calmos?

—Há uma relação sim, Zac, mas certamente não é tão simples. Ainda se precisa descobrir mais sobre o que torna uns susceptíveis e outros resistentes, uns contaminados e outros imunes. Agora, porém, não há tempo para mais conversa. Vão! Vão logo! Se escondam à noite, andem sem serem vistos de dia! Vocês conseguem! Vocês são sobreviventes há anos! Continuarão sobrevivendo! Vão!


Caminharam, procurando se esconder junto a paredes e muros, até chegarem num estacionamento próximo a uma estação de metrô. De jeans e camisetas, os dois adolescentes de dezessete anos pareciam pouco mais do que crianças. Se avistavam alguma pessoa, tratavam de andar no sentido oposto. Algumas viaturas da polícia e alguns veículos do exército passaram por eles apressadamente e, se foram vistos, não foram incomodados.

Os trens não estavam funcionando, assim como nenhum tipo de transporte público, mas alguns poucos veículos foram esquecidos por ali. Alina forçou a porta da cabine de cobrança, procurando alguma coisa. Saiu de lá com o cabide de arame que segurava o uniforme do funcionário e um pequeno alicate. Identificou o veículo que queria e seguiu decidida até ele.

—O que você vai fazer?

—Arrumar um carro para gente. Você sabe dirigir, não é?

—Sei, quer dizer, mais ou menos...

—Vai ter que ser mais. Não vou a pé para lugar nenhum! Muito menos para esse fim de mundo onde a Val nos mandou!

Encontrou o modelo popular, velho e desbotado.

— Se vamos roubar, por que não aquele ali, potente, novo? – animou-se Zac.

—Porque a trava dele é elétrica e eu não sei abrir e nem desligar o alarme. Esse daqui está fácil.

Introduziu o arame junto do vidro da janela, conseguiu passa-lo por baixo e logo a ponta do arame estava do outro lado. Chegar à trava manual foi fácil. Então era só puxá-la para cima.

—Feito – sorriu satisfeita com sua destreza – ter pai ladrão tem suas vantagens!

—E como é que vamos ligar? Você também sabe fazer ligação direta?

—Até sei, mas não precisa – e atirou as chaves para ele – estavam no bolso do uniforme. Eu só queria ver se ainda levava jeito com as travas – riu.

Deixaram o estacionamento sem que ninguém tivesse aparecido. Aos trancos, pois as habilidades de Zac no volante eram bem primárias, avançaram. Evitaram as avenidas, desviaram quando viam alguma movimentação. O helicóptero da polícia passou por cima deles, confirmando que algum tipo de controle oficial ainda existia.

Finalmente a rodovia. Agora não havia alternativa, não tinham vias secundárias para usar. Conferiram o tanque e tinham bastante combustível. Suspiraram quase ao mesmo tempo e num consenso mudo Zac acelerou o veículo.

A via Dutra estava vazia. Só o som do vento nas janelas podia ser ouvido. Alcançaram a Fernão Dias rapidamente. Os primeiros quilômetros foram mais tensos, havia muitas construções próximas da estrada, acessos nas laterais pelos quais a qualquer momento poderia surgir um outro veículo. Tão atento a eles estavam que Zac nem viu, pelo retrovisor, a caminhonete preta que se aproximava por trás deles. O veículo potente acelerou e ultrapassou o velho carro popular. De dentro da picape, dois homens olharam detidamente para eles, confabularam entre si e, num instante, cortaram a frente dos jovens, obrigando Zac a frear de vez, deixando o carro morrer. Os homens saíram do carro armados de porretes e olhares ferozes.

Trêmulo, Zac deu a partida e engatou a ré. Alina gritou:

—Para! O que você está fazendo?

—Fugindo, ora!

—Não, vai para frente, para frente! Atropela eles!

—O quê?! Eu não vou matar esses homens!

— E você acha que eles querem fazer o quê com a gente? Somos nós ou eles!

O amigo sacudiu a cabeça e, determinado, continuou para trás, encontrou uma entrada e chegou num labirinto intrincado de ruas estreitas e casas tão junto da pista que dava até para ver algum morador ali dentro.

—Ótimo! Bela escolha! Obrigada por matar nós dois!

Ele a ignorou, decidido. Ela continuou gritando:

—Vamos morrer, vamos morrer!

Zac virou à esquerda e novamente à esquerda. Esperava que seu senso de direção o estivesse guiando corretamente. A histeria de Alina não o ajudava em nada com a concentração, mas ele permaneceu firme. Finalmente avistou novamente a rodovia. Saíra onde queria, alguns quilômetros à frente dos homens da caminhonete.

Só quando se viu novamente em alta velocidade Alina calou os gritos. Cobriu o rosto e começou a chorar:

—O que está acontecendo comigo? Há pouco tive uma vontade louca de acabar com aqueles homens! Eu vi a cena na minha mente, os dois estraçalhados no chão depois de passarmos por cima deles! Eu estou doente Zac! Só pode ser! Primeiro o Edinho, agora isso!

Ele soltou uma das mãos do volante e a abraçou, aconchegando-a junto dele. No íntimo, a mesma dúvida lhe ocorrera, mas ele nada disse.

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