Não Somos Apenas Um (Parte 1)

Nesse, e nos próximos dois posts, vou fazer algo diferente. Vou compartilhar com vocês um conto que escrevi. É sangrento, vou avisando, para os estômagos mais delicados. Para os que se dispuserem a ler, espero que se divirtam.


Limpou o sangue da lâmina no tapete estendido para secar antes de entrar em casa. Não sabia explicar a calma que sentia desde que num movimento decidido perfurara o pescoço do Edinho Careca. No íntimo, sabia que um dia algo assim ia acontecer. Os olhares lascivos, a mão que por qualquer motivo a tocava por mais tempo do que o necessário. Só não havia imaginado a cena brutal que protagonizara.

Entrou, trancou a porta atrás de si e permaneceu ali, as costas contra a madeira crua do barraco. Com a faca ainda na mão, o brilho do aço refletindo seu corpo sujo do sangue do rapaz, Alina se deixou escorregar até o chão. Abriu a mão, liberou a arma e o som do impacto do metal no piso finalmente a tirou do transe.

O choro veio em acessos convulsivos, arquejantes, porém silencioso. Não podia acordar a mãe que dormia no único quarto da casa na companhia do pastor adúltero, que toda a quinta-feira requisitava seus favores. Engoliu em seco seu desprezo, quem era ela para julgar a mãe?

—Alina! Alina!

O chamado num sussurro veio acompanhado por um leve roçar na porta.

—Zac! Meu Deus!

Guardou rapidamente a faca na bota, puxou o amigo para dentro num segundo e trancou a porta de novo.

—Alina – repetiu ele, apavorado com todo aquele sangue no corpo da morena curvilínea, sua colega desde o jardim de infância.

Ela se jogou nos braços dele, apertou-o com força e ele, indefeso, se entregou naquele abraço, o cabelo perfumado dela entorpecendo seu senso crítico, forçando-o a aumentar a vigilância sobre seus instintos. Ela confiava nele, era a sua amiga. Precisava dele.

Aos poucos, conseguiu afastá-la de si, fez um sinal pedindo silêncio com o dedo sobre os lábios, abriu a porta, olhou para os lados, confirmou que a viela permanecia vazia. Puxou-a pela mão e saíram para a madrugada anormalmente quieta, como se o tempo estivesse temporariamente suspenso.

Conduziu a garota que se deixou levar docilmente até os fundos do Armazém do Nico. Achou a chave embaixo da pedra quadrada, como sempre, e eles entraram rapidamente pela passagem de mercadorias. Girou novamente a chave na fechadura, e suspirando mais calmo, acomodou-se com ela atrás do balcão:

—Tem alguma coisa muito estranha acontecendo, o pessoal está muito louco...

—Estranho o quê, Zac? O pessoal está louco sempre!

—Não, é diferente. Eu estava na mesa de som, lá em cima. Estava bacana, todo mundo dançando, DJ Eqnile me deixou ficar lá, e, de repente, começou a pancadaria...

—Sempre tem pancadaria...

—Não desse jeito! Chegou uns caras agarrando, jogando no chão...

—Sempre tem...

—Espera, me deixa falar... – ele começou a tremer e ela percebeu finalmente que algo muito sério tinha se passado.

—Conta – incentivou.

—Foi uma selvageria, assassinato, estupro, parecia que tinham aberto a porta do inferno. Finalmente a polícia chegou, mas a selvageria só aumentou, não dava para saber quem era pior. Eu congelei, mas Eqnile me arrastou para fora e me mandou correr. Ele fugiu também. Eu só pensava em você! Foram eles que fizeram isso – apontou o sangue na blusa dela - você está machucada?

Ela negou com a cabeça e voltou a chorar. Quando se acalmou, explicou:

—Eu saí cedo da festa, estava triste e cismada com o lance do Vadinho. Aquilo foi encomendado, não foi bala perdida. Foi o chefe do tráfico! Quando estava perto de casa, Edinho me alcançou, veio com aquela conversa mole dele. Como eu não parei, ele me agarrou por trás. Tentei me soltar, gritei, ele me tapou a boca e começou a me puxar para o beco. Eu sabia o que vinha a seguir. Enquanto ele me dobrava para frente e tentava arrancar a minha roupa, me abaixei mais um pouco, peguei o canivete na bota, me virei de vez e estoquei, nem vi onde. As mãos dele me soltaram e tentaram segurar o sangue que esguichava da garganta. Puxei o canivete de volta e saí correndo. Eu não queria, quero dizer, não pensei, entendeu?

—Você não entendeu ainda? É disso que estou falando! Selvageria, parece que todo mundo liberou geral, pega o que quer, mata quem quer que atrapalhe...

—Você acha que eu...?

—Nãoo! Você se defendeu! Olha para mim! Você se defendeu! Você fez o que precisava fazer. Como sempre disse que faria, se fosse necessário.

— Foi com o canivete do meu pai – choramingou mais aquela ferida – a última coisa que ele me disse antes de ser preso “usa isso do jeito que te ensinei, quando for necessário”.

Ele ia dizer alguma coisa, quando o som de ferro amassando a porta da entrada do estabelecimento o fez parar. Mais ferro, parecia uma horda tentando colocar a porta abaixo.

Num olhar se entenderam e se arrastaram até os fundos, saíram silenciosamente, trancando cuidadosamente a porta atrás deles. Lá fora, onde antes havia silêncio, agora se ouvia o caos. Arrastaram-se por vielas e ruas, desviando dos sons de gritos, tiros e arrombamentos que virara a favela. Deslizando junto de paredes, atravessando quintais, pulando cercas, chegaram até a avenida principal que margeava toda a comunidade. Decididos, cruzaram a via. Conviviam com a violência desde cedo. Sumir de vista, não chamar a atenção, buscar um esconderijo seguro não era propriamente uma novidade.

Chegaram ao bairro de classe média vizinho quase ao mesmo tempo em que o sol dava as caras. A luz do dia trouxe conforto, mas não demorou muito para também revelar a tragédia. Corpos estendidos pelas ruas, mutilados, uma chacina, policiais, civis, homens, mulheres, crianças. As casas permaneciam de portas e janelas fechadas, quem estava em casa protegia-se como podia.

Na casa da professora Valquíria, trêmulos e ofegantes, apertaram a campainha do alto portão de ferro várias vezes. Nada. Insistiram. Ela tinha que estar ali...

Finalmente o visor se abriu e o olhar familiar da querida mestra apareceu do outro lado. A hesitação era clara:

—O que querem aqui?

—Val, somos nós! O que está acontecendo com você? Por que não abre?

—Vão embora!

—O quê?! Somos nós, não vê? Alina e Zac. Por favor, estamos desesperados...

A resposta foi o silêncio. Os amigos deram as costas ao portão. Quem sempre lhes dera respostas, hoje entregava apenas indiferença. Passos lentos, começaram a se distanciar. O rangido do portão os fez parar.

— Venham, rápido! Rápido!

Abraçou os adolescentes ligeiramente. Afagou seus rostos. Mirou seus olhos. Por fim, convencida, levou-os para dentro:

—Está muito difícil. Este caos, não dá mais para saber em quem confiar! Esse vírus... Meus Deus, onde vamos parar?

—Que vírus, Val? O que é que está acontecendo? Ficou todo mundo louco?

—Em que mundo vocês estão? Não estão sabendo da contaminação?

O olhar incrédulo dos dois foi resposta suficiente.

(continua na próxima semana...)

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