Dias dos avós

Hoje, 26 de julho, foi o dia escolhido para se homenagear os avós. Uma data discreta, pois não vemos nos anúncios da mídia o estímulo para presentear os homenageados, como ocorre fortemente com o Dia dos Pais ou das Mães, porém, uma data que nos convida a refletir sobre a importância daqueles que, muitas vezes, já não estão conosco presencialmente, mas se encontram próximos de nós através do pensamento, da memória, dos genes e da influência que produzem nas nossas vidas e que muitas vezes não nos damos conta.

A data comemorativa me remete, especialmente, à minha avó, Maria Theisen. A minha Oma (avó em alemão), mãe da minha mãe, dos meus avós, a única com quem pude conviver de perto e de quem o exemplo se fez presente em toda a minha vida – e até hoje. Imigrante alemã, chegada ao Brasil ainda criança, sobreviveu às agruras da pobreza e às dificuldades da vida no interior do Rio Grande do Sul no início do século vinte. Trabalhadora braçal, agricultora, tenaz, forte, dá à expressão “a ferro e fogo” – lembrando a obra do grande escritor gaúcho Josué Guimarães – uma conotação doméstica, próxima, íntima.

Contar a vida da Oma, daria um livro – pensei inúmeras vezes em escrevê-lo, mas o meu desenvolvimento como escritora tardou bastante e ela já não está mais aqui para que eu possa tomar seus depoimentos. Contar apenas com a minha memória sobre a sua história incorreria em muitas imprecisões, porém, lembro o suficiente – ela gostava muito de contar e eu de ouvir – dos fatos marcantes e, especialmente, das suas escolhas e atitudes, que continuam a me inspirar.

Quando já casada e com filhos pequenos, a Oma se viu obrigada a deixar um pedaço de terra que arrendava no interior do Estado – uma pequena “colônia”, como se dizia, vender os animais de criação a quem se afeiçoara, a vaca Estrela e um cavalo que não lembro o nome (não disse que minha memória é imprecisa?), o cavalo arredio que ela se orgulhava de ser a única que ele deixava montar. A cena descrita por ela e fixada na minha mente é a da tristeza da família aboletada numa carroça com alguns pertences em direção à capital Porto Alegre, o meu quadro familiar de êxodo rural.

Na cidade, foram para uma casinha muito humilde, sem água encanada, que obrigava meus tios e minha mãe fazerem várias viagens carregando latas do poço comunitário até a residência. Residência essa, desprovida de conforto, mas não de enfeites, já que cortinas - ainda que de tecido barato - guardanapinhos cuidadosamente engomados e alisados e uma infinidade de folhagens e flores cultivadas em latas de óleo que viravam vasos de parede e canteiros onde se misturavam flores, chás, temperos e ervas de funções energéticas - pois sempre havia um pé de arruda para “afastar o mau olhado” - parecem ter acompanhado minha vó onde quer que ela estivesse.

Maria, como tantas outras Marias desse Brasil, criou e educou os três filhos sozinha, com o suor do seu trabalho – como lavadeira, diarista, zeladora - sem poder contar com o marido que abandonara sua responsabilidade quando as crianças eram ainda pequenas. Maria era de temperamento bastante duro nessa época, mas a dureza foi se atenuando e a Oma que conheci, era mais doce e gentil, que cultivava prazeres simples como fazer artesanato, cuidar das plantas, fazer biscoitos no Natal para toda a família. Que assava um bolo de laranja para presentear à moça do mercadinho da esquina, tomava chimarrão com a vizinha acamada, cultivava amizades onde quer que fosse. Era a vó Maria de tantos que não pertenciam ao tronco familiar, era Maria que tinha alegria de viver, apesar das dificuldades. Maria que não teve a oportunidade de aprender a ler e a escrever, pois quando a escola chegou ao vilarejo onde morava, ela já estava “mocinha demais” para estudar e precisava ajudar em casa, mas que expressava sabedoria e resiliência em cada atitude. Maria que, entretanto, treinou bastante e aprendeu a assinar o nome que homenageio orgulhosa e amorosamente: Maria Theisen.

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