Amor próprio

Ontem assisti uma palestra sobre amor próprio, sua importância e obstáculos, e fiquei a refletir sobre isso, utilizando minha própria experiência pessoal.

O amor próprio é diretamente proporcional à satisfação com a vida. Não se sentir apto, não se sentir à altura dos demais, mina a capacidade de enfrentar desafios, experienciar, ocupar seu próprio espaço e florescer em todos os aspectos da existência. O que pode ser considerado, erroneamente, timidez, é, muitas vezes, vergonha, por não se acreditar igual aos outros, mas inferior ou menos merecedor. E esse tipo de crença sabotadora já me perturbou muitas vezes, desde a juventude. Demorei a entender o processo.

Anos atrás me inscrevi num curso de narrativa de roteiro para dramaturgia. Lembro como se fosse hoje o desconforto, o coração acelerado, quando na primeira aula o professor pediu que cada aluno falasse um pouco sobre si. Minha voz saiu num fio, mal consegui dizer que era veterinária, pois estava afastada da atividade naquela época, e mal consegui falar que já havia escrito dois livros, pois, como não havia publicado, considerava o fato de pouco valor. Disfarcei o resto do curso com uma atitude distante, ocultava bastante bem a insegurança, mas admitir honestamente que estava buscando um novo caminho ciente das minhas limitações e das dificuldades da profissão de escritor, teria sido muito mais construtivo.

No processo repetitivo das lições que a vida me propôs, muitas vezes me lancei na armadilha do “o que é que as pessoas vão pensar”. Nada pode ser mais egoico, afinal o que justificaria alguém despender seu tempo pensando sobre mim? Nada mais triste, precisar da aprovação de terceiros para se sentir valorizada. Certa vez, eu estava animada para fazer aulas de karatê junto com meus filhos, já adolescentes, numa turma de múltiplas idades. No dia em que iria fazer a primeira aula, já no estacionamento do clube, travei: “o que vão pensar de uma mulher da minha idade começando karatê?! Não vou!” Meu filho não me deixou desistir – chegou até aqui, vai fazer a aula. Pois fui, fiz, fui muito bem recebida e amei. Treinei por dois anos, só parei mesmo por uma lesão no joelho.

Acabei compreendendo que a questão não é estimar a si mesmo por essa ou aquela qualidade positiva. A questão é se estimar por aquilo que se é, com toda a luz e toda a sombra que carregamos, assim como todo mundo. E reconhecer as próprias sombras passa pelo processo de abrir mão do orgulho de ser muito bom ou perfeito (ai quanto arrogância!).

Observar quais das minhas características valorizo e quero manter, mesmo se ninguém no mundo pudesse vê-las, ajuda a identificar o que estimo, de verdade, em mim. Encetar um esforço sincero para modificar o que não quero, me traz a esperança de um dia me tornar o que aspiro. E assim, vou crescendo, mais amadurecida, mais confiante e com mais capacidade de realização, construindo, sobre um alicerce de amor próprio, um ser humano melhor e mais realizado.